Dicas de leitura

15 fevereiro 2012

Por

Marcos E. F. Marinho


MADAME BOVARY
GUSTAVE FLAUBERT

ED. COMPANHIA DAS LETRAS.

Reconhecido por autores como Henry James como “o romance perfeito”, Madame Bovary é a obra fundamental de Gustave Flaubert (1821-80). Trata-se de um raridade, mesmo em um clássico, um exercício meticuloso de escrita que igualmente desafiava as estruturas literárias e as convenções sociais. Não à toa, a época de lançamento o impacto foi duplo: um sucesso de público e a reação feroz do governo francês, que levou o autor a julgamento sob a acusação de imoralidade.

Flaubert inventou um estilo totalmente novo e moderno, praticando uma escrita que, ao longo dos cinco anos que levou para terminar o livro, literalmente avançou palavra a palavra. Cada frase devia refletir o esforço em obtê-la, sendo reescrita e reescrita ad infinitum. Mestre do realismo, o autor documenta a paisagem e o cotidiano da segunda metade do século XIX, ironizando os romances sentimentais e folhetins, gêneros que considerava obsoletos.

A história faz um ataque à burguesia, desmoralizando-a com a descrição exuberante de sua banalidade. Em um tempo em que as mulheres eram submissas, Emma Bovary encontra nos tolos romances dos livros o antídoto para o tédio conjugal e inaugura uma galeria de famosas esposas adúlteras atormentadas na literatura.

 

A PALAVRA AUSENTE
Autor: Marcelo Moutinho
ED. ROCCO

Um ônibus que circula pela zona sul do Rio; a cabine telefônica de uma associação de moradores; o exíguo boxe de um banheiro. É em espaços assim, onde as dimensões mais corriqueiras articulam o ímpeto de microcosmos sempre surpreendentes, que se desdobram alguns dos contos de A palavra ausente, novo livro do escritor carioca Marcelo Moutinho.

Por esses cenários triviais – e, por isso mesmo, tão ardilosos – circulam personagens para os quais a perda, ou a ausência, está sempre à espreita. Aliás, o título do livro já sugere a questão que vai pairar, como uma sombra, sobre as dez histórias. Em dupla acepção semântica, pode aludir à carência da palavra, mas também expressar uma simples menção ao vocábulo “ausente”, à falta de algo, ou de alguém.

Algumas vezes, essa ausência se impõe na forma de uma falta intransponível – como em “Água”, no qual um filho dá banho no pai doente, antecipando o vazio do fim, ou “Folia”, em que um mestre-sala vê o seu cotidiano redimensionado pela partida da companheira. Noutras, surge como a aparição da ideia da morte, pela primeira vez, no universo infantil – casos de “Jogo-contra” e “Dindinha”. Há, também, a aflição da perda nas relações amorosas; a espera ainda oclusa pelo surgimento de um filho na rotina de um casal; o silêncio atordoante de um telefone que não toca.

E nem sempre a ausência se refere à distância de uma pessoa. No fio que une os contos de A palavra ausente cabe, ainda, o sentimento de perda impulsionado pelo desejo não realizado da própria literatura: caso de “Dona Sophia”, no qual a camareira de um hotel em Manaus é assaltada pelo fascínio da leitura, após o encontro com uma autora célebre.

Passando inteiramente ao largo dos lugares-comuns atrelados ao tema, o autor reforça neste novo trabalho o estilo que já havia marcado sua obra anterior, Somos todos iguais nesta noite, também publicada pela Rocco. Os pequenos dramas encenados no espaço urbano são narrados com uma prosa ao mesmo tempo lírica e concisa, que, como destacou Cíntia Moscovich na orelha do livro, realiza um “mergulho corajoso e solidário na densidade humana”. Com maestria literária, Marcelo Moutinho perscruta os meandros da ternura, em histórias que revelam: a delicadeza nunca é simples.

Mais artigos para explorar